A todo o corpo apostólico da Companhia de Jesus 
na América Latina e Caribe

Que a igualdade essencial das mulheres seja uma realidade vivida. 
Este é um verdadeiro “sinal dos tempos”! 
(CG 34, D 14, nº 10) 

 

Companheiros e companheiros na missão: uma saudação especial. 

Durante o mês de março, e principalmente no dia 8, relembrando 129 mulheres que morreram por reivindicarem o reconhecimento de seus direitos trabalhistas em Nova York (EUA) em 1908, celebramos a presença das mulheres em nossas vidas e lembramos sua tenacidade na justa luta pela igualdade real. Trata-se de rostos e histórias concretas que alimentam nosso interior com a imensa estatura de Dorothy Stang ou Berta Cáceres, Magdalena ou Maria de Nazaré. São nomes, mãos, olhos, bocas, vozes, palavras, carícias de mães, de irmãs, de companheiras, de mestras da Fé e do cuidado, de lutadoras e de guerreiras, tantas vezes invisíveis e não reconhecidas! A cada uma delas, nosso respeito, carinho e gratidão. 

Na CPAL (Conferência dos Provinciais Jesuítas da América Latina e do Caribe), tivemos a graça de ter um bom número de companheiras que, reconhecendo, respeitando e valorizando o seu vínculo com a Companhia de Jesus e a sua história, aos poucos nos ajudaram a reconhecer também nós – seus companheiros de missão – que devemos mudar algumas atitudes de nossa herança cultural, e nos abrirmos para um mundo onde o patriarcalismo e qualquer tipo de sexismo são coisas do passado. 

Não sem razão, a CG 34 afirma que “ainda temos o legado de uma discriminação sistemática contra as mulheres. Está embutido nas estruturas econômicas, sociais, políticas, religiosas e até linguísticas de nossas sociedades. Muitas vezes é parte de um preconceito e estereótipo cultural ainda mais profundo. Muitas mulheres pensam que os homens demoraram a reconhecer sua humanidade plena. Quando relatam essa cegueira, frequentemente experimentam uma reação defensiva por parte dos homens” (D 14, nº 3). 

Assim como na história de discriminação por raça ou cor, a ferida é mais evidente e marcante para quem a sofreu como imposição do que para quem a produziu no corpo (vida, história) de outras pessoas. Que entendamos que isso é essencial para ouvir o chamado do Espírito nos gritos, muitas vezes incômodos, de pessoas e grupos específicos. 

Ainda neste mês, saudamos com grande satisfação e esperamos a decisão do Padre Geral Arturo Sosa de formar uma comissão com a participação de mulheres das seis Conferências, que ajudará toda a Companhia a refletir sobre o papel que desempenham e o lugar que devem ocupar as mulheres na nossa missão, na perspectiva da colaboração e do estilo de Igreja que o Evangelho de Jesus nos propõe. Aguardamos para o início da próxima semana a comunicação do Pe. Arturo Sosa indicando o que a Companhia espera dessa comissão. 

Essa comissão sem precedentes é o resultado de um esforço de muitas mulheres dentro da Companhia de Jesus, incluindo particularmente o Grupo de Reflexão e Trabalho sobre Questões de Gênero, formado por mulheres e homens de algumas obras apostólicas da CPAL. É uma decisão ousada que nos permitirá avançar no compromisso de viver e de promover a justiça e a igualdade tanto nas nossas obras, como na Igreja e na sociedade, pois “é urgente traduzir a teoria na prática, não só fora, mas também dentro da Igreja” (CG 34, D14, nº 6). Queremos comprometer-nos e encorajar todos os membros do corpo apostólico, mulheres e homens, a deixar-nos inspirar por essa iniciativa e a transferi-la para os nossos espaços de vida e ação, obras e províncias. 

“Em resposta – como diz a CG 34 – pedimos primeiro a Deus a graça da conversão. Fizemos parte de uma tradição civil e eclesial que ofendeu as mulheres. Como muitos outros homens, temos a tendência de nos convencer de que o problema não existe. Mesmo sem perceber, temos sido cúmplices de uma forma de clericalismo que endossou o domínio convencional do homem com uma suposta sanção divina. Com esta afirmação queremos reagir pessoal e corporativamente e fazer o que estiver ao nosso alcance para mudar esta lamentável situação” (CG 34, D 14, nº 9). 

Agradecemos às nossas colegas por nos ajudarem neste caminho com sua coragem, sua rebelião e seu trabalho para que o reino da justiça e da igualdade, o reino de Deus, seja vivido cada vez mais aqui e agora. Estamos particularmente gratos “às religiosas com os quais temos um vínculo especial e que de tantas maneiras foram as pioneiras na sua contribuição para a nossa missão de fé e de justiça” (CG 34, D 14, nº 15). 

Sabemos que um compromisso consciente e sustentado para levar a cabo esta reconciliação só pode partir do Deus de amor e justiça, que reconcilia a todos e promete um mundo em que não haverá mais distinção entre judeu e grego, escravo e livre, masculino e feminino” (CG 34, D 14, n° 16).

Lima, 6 de março de 2021.

ROBERTO JARAMILLO BERNAL, SJ
Presidente CPAL 

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