A Amazônia tem sido o centro das atenções mundiais nos últimos tempos, o que trouxe importância ainda maior para a 4ª Semana de Estudos Amazônicos (SEMEA), realizada entre os dias 29 de outubro e 1º de novembro, em diversas instituições ligadas à Companhia de Jesus na região de Belo Horizonte (MG). Iniciativa do Observatório Nacional de Justiça Socioambiental Luciano Mendes de Almeida (OLMA), com apoio da Rede Eclesial Pan-Amazônia (REPAM-Brasil), o evento reuniu representantes da sociedade civil, do poder público, dos povos amazônicos, de instituições eclesiais e da comunidade acadêmica, tratando de temas como economia solidária, juventudes, povos indígenas e quilombolas, movimentos sociais, entre outros.

Mais do que falar sobre a Amazônia, a SEMEA se propôs a ser um espaço de experiência. Na abertura do evento, representantes dos povos amazônicos adentraram o auditório paramentados com vestes tradicionais, portando símbolos da cultura amazônica e estandartes de pessoas que morreram na luta por direitos, como Chico Mendes e Irmã Dorothy. Com cantos e preces, ofereceram uma experiência mística e espiritual, celebrando a cultura do cuidado com os dons da natureza.

Presente no evento, o padre tuyuka Justino Sarmento Razende, é o único indígena que colaborou como especialista na produção do documento a ser debatido no Sínodo dos Bispos para a Amazônia. Voz ativa para um diálogo entre a Igreja e os povos da Amazônia, Justino falou da necessidade da Igreja se transformar e adquirir ‘um rosto amazônico’. “Rosto amazônico é aquilo que a Igreja vem dizendo sobre a enculturação da mensagem do Evangelho. Que o povo, que é cheio de valores, expressões, riquezas, vai expressar os valores cristãos a partir de sua identidade cultural como qualquer cultura. Isso que muita gente não entende. Quem recebe o Evangelho, deve vivê-lo dentro dos seus parâmetros culturais”, frisou Pe. Justino.

Membro da família franciscana e assessora da Rede Eclesial Pan-Amazônica (REPAM) e uma das auditoras do Sínodo da Amazônia, a antropóloga Moema Miranda foi uma das 35 mulheres convocadas por Papa Francisco para participar da reunião. Perguntada se o Sínodo foi ao encontro do empoderamento feminino, ponderou que “é o sínodo do reconhecimento do poder que já temos. Não é o sínodo que empodera a gente. Esse poder não é um poder que pode tudo, mas que possibilita tudo. É o poder do serviço, da conexão. O vínculo principal que nos humaniza é a conexão, a ligação e a interconexão, o reconhecimento de que estamos em fluxo e em relação constante, o poder fazer, poder ajudar isso acontecer, essa tessitura, essa costura, as pequenas partes, vão montando um mosaico lindo. Esse é o verdadeiro poder. O poder de fazer do mundo um mundo melhor. Mais que o sínodo do ‘empoderamento’ das mulheres, é o sínodo do reconhecimento inescapável de que as mulheres são essa parte produtora de vida, de harmonia e de paz”.

Outra pauta recorrente na mídia e de suma importância para os povos amazônicos, o agronegócio também foi assunto durante a SEMEA. Em sua fala, a professora da Dom Helder Escola de Direito, Maraluce Maria Custódio apontou a sustentabilidade como uma das soluções para os problemas que envolvem essa área.  “Nós temos uma visão negativa do agronegócio pela forma como ele é realizado atualmente – em larga escala, com muitos agrotóxicos. Mas não precisa ser assim. Se você coloca regras e estabelece formas para trabalhar, quem garante que ele não vai cumprir a perspectiva do bem viver? Ou mesmo contribuir para a economia solidária”, apontou.

Fonte: Dom Total

Fotos: Thiago Ventura/DomTotal

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